Dinheiro móvel: um veículo para a inclusão financeira em Moçambique

O acesso a serviços financeiros em Moçambique é ainda problemático, sendo ainda exacerbado por níveis educacionais baixos especialmente nas áreas rurais. 20% da população adulta tem acesso a serviços bancários e financeiros no país, dos quais 40% se encontram em áreas urbanas e 10% nas rurais (Estudo FINSCOPE, 2014) 1. O governo de Moçambique, consciente desta situação, desenvolveu a Estratégia Nacional de Inclusão Financeira (2016-2022)2 e um dos enfoques chave desta estratégia está no aumento da acessibilidade a serviços financeiros pela população, especialmente nas áreas rurais. O serviço de dinheiro móvel é um dos canais que estão a ser usados para se acelerar a inclusão financeira oferecendo uma alternativa aos serviços financeiros formais. Segundo um estudo recente (Agosto de 2018) focalizado na estratégia de comunicação e marketing Pedro do M-Pesa pelo Financial Sector Deepening, Mozambique (FSDMoç)3 mais moçambicanos anteriormente excluídos do ponto de vista financeiro obtiveram acesso a serviços através de serviços de dinheiro móvel (M-Pesa). A seguir estão alguns dos destaques deste estudo:

  • Embora tenha havido um aumento da captação de dinheiro móvel em Moçambique, isto está a

    acontecer mais rapidamente nas áreas urbanas, contrariamente às áreas rurais. A maior parte dos utilizadores do M-Pesa são mais jovens, mais urbanos, com melhor nível educacional e mais ricos em relação aos não utilizadores4, daí que haja ainda trabalho a fazer para se trazer os serviços financeiros para mais perto (através do dinheiro móvel) das zonas rurais.

  • O M-Pesa tem de longe a maior fatia do mercado de dinheiro móvel actualmente em Moçambique e isto foi impulsionado pela adopção da estratégia de comunicação e marketing Pedro, que combinou o uso de um modelo de promotor e publicidade substancial.
  • O modelo de promotor que foi uma das inovações da estratégia de comunicação e marketing Pedro, integrou promotores cujo trabalho principal era inscrever novos clientes M-Pesa. Há evidências de que através deste modelo, houve um aumento substancial na utilização do dinheiro móvel, especialmente nas áreas urbanas. Mais de 2 milhões de novos clientes inscreveram-se por via do modelo de promotor o que resultou em taxas de penetração (nas amostras das áreas do estudo) de mais de 50% nas áreas urbanas (na cidade de Maputo tem até mais de 70%), enquanto nas áreas rurais onde foi implementada a estratégia Pedro, uma taxa de penetração de 30% ou mais.
  • Há oportunidades para os provedores de dinheiro móvel no país porque mesmo nas áreas urbanas, há pessoas que estão financeiramente excluídas, embora nas áreas rurais a proporção seja muito mais elevada.
  • Embora tenha havido bons progressos na captação de dinheiro móvel em Moçambique (especialmente o M-Pesa) nos últimos dois anos, isto foi manchado por fraudes, infra-estrutura de rede móvel subdesenvolvida nas áreas rurais e poder de compra reduzido dos agentes (para gerir o seu e-float) e dos utilizadores do M-Pesa, o que afecta a sua capacidade de investir/gastar.
  • Alguns serviços adicionais que estão a ser solicitados e que não estão actualmente incluídos no menu M-Pesa são: contas de poupança que geram juros; serviços de microcrédito, total interoperabilidade entre operadores de redes móveis e bancos, assim como serviços de empréstimos para agentes de modo a poderem gerir o seu e-float.
  • O rendimento médio por agregado familiar da população estudada é de 565 MT (aproximadamente 10 dólares americanos por mês) e isto tem um efeito directo sobre o poder de compra dos respondentes. Consequentemente, a maior parte dos utilizadores transacciona quantias muito pequenas através do M-Pesa.
  • Os subsídios irão continuar a ser uma opção para se promover a inclusão financeira, especialmente nas áreas rurais de Moçambique porque o retorno sobre o investimento para os operadores de dinheiro móvel nas áreas rurais não é atraente, uma vez que leva mais tempo de retorno comparando com às áreas urbanas. Isto requer um sistema adequado e robusto de incentivos para os promotores para converter as populações “de mais difícil alcance” em clientes de dinheiro móvel.

    (Dr. Daan Velthausz & Dr. Rotafina Donco)

    1 FinScope Consumer Survey Mozambique 2014: Retirado de http://pubdocs.worldbank.org/en/744811468275677442/mozambique-finscope-consumer-survey-mozambique-2014.pdf2http://pubdocs.worldbank.org/en/469371468274738363/mozambique-national-financial-inclusion-strategy-2016-2022.pdf
    3 O Financial Sector Deepening, Moçambique (FSDMoç – A Extensão e Inclusão do Sector Financeiro), é um programa de seis anos financiado pela agência britânica para o Desenvolvimento Internacional (DFID) e pela Agência Sueca paro Desenvolvimento Internacional (ASDI) cuja missão é identificar e estabelecer parcerias com partes interessadas (stakeholders) chave do mercado, oferecendo investimentos direccionados e visões para promover o sector financeiro de modo a melhorar a inclusão financeira.
    4 Os nao utilizadores deste estudo sao todos os repondentes que nao usam o M-Pesa.

Author
Cristian Bouche

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